Entrevista: Benki Piyãko - vice-presidente da organização Ashanika e agente agroflorestal

13/08/2012

Entrevista: Benki Piyãko - vice-presidente da organização Ashanika e agente agroflorestal

Benki Piyãko visita Fundação Banco do Brasil
 
Por Dalva de Oliveira e Elton Pacheco
 
Liderança atuante entre as comunidades indígenas do Acre, Benki Piyãko tem contribuído com a preservação de aldeias indígenas ao defender as terras da exploração predatória. Mais que isso, ele ajuda a disseminar técnicas que beneficiam a vida em comunidade e, ao mesmo tempo, preservam o meio ambiente. Nascido em 1974 na aldeia Apiwtxa, às margens do Rio Amônea, afluente do Juruá, no Acre, Benki é também agente agroflorestal, vice-presidente da organização Ashanika, que desenvolve os projetos implantados na comunidade, e um dos responsáveis pelo plano de manejo de recursos naturais da reserva. Nas horas vagas, é também cantor e compositor. O líder indígena esteve na Fundação Banco do Brasil na última segunda-feira, 6 de agosto, para estreitar os laços com a entidade. Durante a Rio+20, a Fundação Banco do Brasil assinou um acordo de cooperação com o Fundo Amazônia do BNDES que prevê a viabilização de atividades produtivas no Bioma Amazônia. Nessa entrevista, Benki Piyãko fala sobre a sua vida, do seu trabalho e das perspectivas para o seu povo. “A Fundação tem o norteamento que nós queremos, que é fazer valer projetos que fortaleçam a sustentabilidade social e econômica”, disse. Confira.
 
Quais os trabalhos que você desenvolve junto a seu povo?
 
Meu trabalho é conduzir o processo político na visão de desenvolver aquilo que traz sustentabilidade à comunidade, no que diz respeito ao equilíbrio social e também na parte instrumental, por meio de desenvolvimento de  projetos,  planos e ações para criar alternativas para a nossa própria organização.
 
Quantas pessoas vivem na Apiwtxa e de onde vem o sustento do povo?
 
Ao todo, temos hoje 190 famílias e um total de 520 pessoas residindo na aldeia Apiwtxa. A nossa sobrevivência vem basicamente da caça, da pesca, da mandioca, do arroz, do milho e da banana.  Hoje nos orgulhamos em dizer que o nosso povo deixa de comer a carne de caça por peixe.
 
O que trouxe você à Fundação Banco do Brasil?
 
A visita à Fundação é estratégica no sentido de apresentar projetos de fortalecimento da nossa comunidade. Hoje ouvimos muito falar em sustentabilidade, mas o que isso significa exatamente para nós? Temos criado vários projetos com uma visão sustentável, seja no reflorestamento, na recuperação de terra,  no manejo de pequenos animais silvestres, no consórcio de diversidade de batatas e frutas. Nesses anos de trabalho tivemos alguns avanços como a criação da merenda escolar para a nossas crianças, que foi uma das coisas que conquistamos nos municípios, além da criação da cooperativa Ashanika, que permite levar nossos produtos aos mercados da região. A Fundação BB tem o norteamento daquilo que nós queremos, que é fazer valer um projeto que fortaleça a sustentabilidade social e econômica, para que as pessoas passem a ter na sua região um produto em sintonia com o equilíbrio ambiental. Se não tivermos isso, cada vez mais o nosso sustento vai sendo exterminado por conta da degradação ambiental,  da contaminação, do desmatamento, das queimadas e da  perda de animais e peixes.
 
Você pode dar um exemplo de experiências bem sucedidas em sua comunidade?
 
Um exemplo é o trabalho feito com os quelônios (espécie de tartarugas,  cágados e  jabutis). No passado, tínhamos a espécie em abundância. Percebemos, com o passar do tempo, que esses animais estavam desaparecendo, muito por conta do costume do nosso povo de comer os ovos e a vender os filhotes. Restaram poucas matrizes. Por alguns anos ficamos com apenas com 30 matrizes, depois com 12 e, em seguida, ficamos sem nenhuma. Diante disso, fizemos um trabalho de coleta de ovos e fomos conhecer uma experiência do Rio Abunã. Lá, chegamos à conclusão que sabíamos fazer tudo, só que pensávamos que não sabíamos. Durante sete anos, trabalhamos firme com os quelônios. Hoje nós temos 1,5 mil espécies em fase de desova. Ainda temos dificuldades de manter, por conta dos tamanhos dos tanques, mas vemos nesse trabalho um claro exemplo de sustentabilidade e uma forma de melhorar a vida.
 
E no que diz respeito às áreas degradadas?
 
Hoje, em nossa comunidade, apenas 1, 5% de área são utilizadas para retirada de madeira e plantação – antes, grande parte era usada para pastagens. O resto está todo reflorestado, um exemplo do que pode ser feito em qualquer lugar do mundo. Para que isso fosse possível, criamos um espaço no centro Yorenka Ãtame que difunde práticas de manejo sustentável dos recursos naturais da região do Alto Juruá voltado para indígenas e não indígenas; fizemos também um etnozoneamento das espécies, mapeamos alguns polos estratégicos com pontos de observação e trocamos dados pela internet para descobrir o que poderia ser feito na região. Esse contato com as outras comunidades foi essencial. O resultado disso são 120 mil mudas plantadas de diversas espécies.
 
Quais são as maiores dificuldades encontradas pelo povo da tribo atualmente?
 
Já identificamos a necessidade de trabalhar com a piscicultura, mas não temos condições de fazermos porque não temos dinheiro para contratar tratores. Não temos tanques suficientes para colocar os alevinos e para criar alternativas de produtos que possam gerar sustentabilidade para a população, por isso precisamos de parcerias.  Por falta de conhecimento e de incentivo, muitos indígenas se dizem pobres vivendo numa região rica como a nossa. 
 
O que você achou desse encontro com a Fundação?
 
Esse contato serviu de orientação para o que a gente vem fazendo. Apresentamos para a Fundação BB propostas nesse sentido, de melhorar os projetos existentes na nossa comunidade. Esperamos que uma possível parceria seja viabilizada para que, em um período de quatro anos, possamos mostrar para o Brasil que uma comunidade indígena com programas estruturados pode ajudar a preservação do nosso bioma.

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