Cerrado Vida – O Assentamento Agroextrativista Americana

certificada 2009

Instituição
Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM)
Endereço
Rua Doutor Veloso, nº 151 - Centro - Montes Claros/MG
E-mail
secretaria@caa.org.br
Telefone
(38) 3218-7700
Responsáveis pela tecnologia
NomeTelefoneE-mailRedes Sociais
Carlos Alberto Dayrell(38) 9109-3719dayrell@caa.org.brcarlosdayrell@gmail.com
Resumo da Tecnologia

Um assentamento diferenciado correlacionando população e ambiente, revela a preservação sustentável do Cerrado promovendo a geração de renda e a segurança alimentar, utilizando o agroextrativismo como linha mestra e a construção coletiva participativa no plano de desenvolvimento.*{ods8},{ods13}*

Tema Principal

Meio ambiente

Tema Secundário

Renda

Problema Solucionado

Os problemas encontrados na comunidade não se diferenciam dos problemas do Cerrado brasileiro, que a partir da Revolução Verde propôs a mecanização do campo, introdução de novas técnicas de cultivo e manejo do solo, entre outras fatores. Tal processo desencadeou uma série de dificuldades, como: a derrubada da mata nativa para implantar grandes monoculturas, utilização desenfreada de defensivos químicos e fertilizantes etc. Esta lógica de produção alterou significativamente a paisagem natural e todo um processo de vida que inclui o ambiente como um todo: a fauna, flora, recursos hídricos e população nativa. Tais mudanças alteram hábitos e costumes dos Geraizeiros, povos que possuem uma forma singular de apropriação da natureza, na qual as estratégias produtivas estão assentadas no complexo agricultura e extrativismo, caracterizado como agroextrativismo. O processo de encurralamento provocado pelo avanço das monoculturas sobre os territórios obrigou a população local a migrar para grandes centros, uma vez que não era possível conviver com a realidade existente, pois não gerava renda e alimentos para subsistência e reprodução sociocultural dos que ali viviam.

Objetivo Geral

Promover sustentabilidade ambiental e valorização da cultura tradicional, com o desenvolvimento de sistemas de produção ligados ao uso e manejo da agrobiodiversidade e aproveitamento dos frutos nativos do Cerrado, gerando renda e segurança alimentar para as famílias do Assentamento Americana.

Objetivo Específico

Fortalecer as tradições agroalimentares a partir da coleta e manejo de frutos; Investir em sistemas de produção diversificados, integrando as produções agrícolas, animal e extrativista; Impactar positivamente na conservação e manutenção da biodiversidade; Combinar viabilidade econômica com inclusão social e conservação ambiental; Contribuir para a geração de emprego e renda no Assentamento Americana; Articular o agricultor assentado junto ao mercado local para consumo dos produtos; Reduzir o índice do êxodo rural principalmente entre os jovens do Assentamento Americana; Potencializar o fortalecimento da organização das mulheres do Assentamento Americana nos espaços de gestão; Levantar elementos para uma estratégia de ação comum, tendo como referência ampliar a visibilidade do Cerrado e de seus povos na realização de Eventos e Intercâmbios.

Solução Adotada

A opção por um padrão de desenvolvimento que considere os recursos naturais do Cerrado e os traços culturais dos povos foi a adoção de um modelo de uso e ocupação do Assentamento Americana. As práticas aplicadas foram na perspectiva de apontar alternativas de gestão ambiental e da produção alimentar para o mercado que pudessem conter novos elementos de sustentabilidade. O CAA iniciou um processo de mobilização e formação para implantação desta proposta, cujos parâmetros consistem no uso sustentável do Cerrado e na geração de renda e segurança alimentar nas terras do Assentamento Americana. A proposta agroextrativista enfrentava o desafio da viabilidade de um assentamento em áreas consideradas impróprias para a atividade agropecuária convencional. A proposta baseou-se nas estratégias desenvolvidas pela população local no uso e manejo das diferentes unidades da paisagem. O CAA colaborou na elaboração do laudo de vistoria da fazenda Americana, indicando a viabilidade de um projeto de assentamento, desde que fossem incorporados alguns condicionantes ambientais e agroecológicos na sua implantação. O Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA) foi construído a partir de demandas e propostas dos assentados. O PDA foi elaborado a partir de diálogos interinstitucionais, através dos quais se construiu uma proposta metodológica, considerando o envolvimento e a participação dos assentados em todas as etapas do processo. Assim, foram realizados contatos e reuniões com lideranças do assentamento com o objetivo de discutir o processo de elaboração do PDA. Concomitantemente, os assentados planejaram a sua participação, a mobilização e organização necessárias para garantir a realização das reuniões, incursões, visitas e encontros a serem realizados durante a elaboração. A metodologia proposta para a realização do PDA pautou-se pela conjugação de potenciais existentes em métodos distintos, privilegiando a concepção e as técnicas de pesquisa indicadas pelo método Diagnóstico Rápido Participativo de Agroecossistemas (DRPA) pertinente ao estudo do ambiente e das relações homem-natureza, além de constituir-se com um potente instrumento mobilizador, possibilitando o compartilhamento de conhecimentos e experiências; a concepção de técnicas e análises sugeridas no método Diagnóstico de Sistemas Agrários (DAS), que permite estudar a articulação entre subsistemas, sistemas e cadeias de produção, além de identificar as interfaces e dinâmicas econômicas existentes no entorno; dinâmicas e análises recomendadas para a identificação de redes de relações, seus limites e possibilidades, além de localizar arenas de negociação no campo político e socioeconômico. Essa proposta metodológica constituiu-se como instrumento para analisar a realidade local, identificar potencialidades e entraves, bem como para contribuir na proposição de projetos para o desenvolvimento do assentamento. Seguem as etapas que consolidaram o processo. A 1ª etapa foi a integração de equipe técnica e assentado a partir de um mapeamento participativo com o objetivo de resgate histórico, cultural e ambiental. A 2ª etapa: delimitação do território e do seu entorno diagnosticando e mapeando os ambientes naturais existentes, realizando estudos a respeito da complexidade e peculiaridade dos mesmos. A metodologia adotada baseou-se na troca de saberes teóricos e nativos. A 3ª etapa: efetivação da área do assentamento aprofundando linhas de estudos ligadas aos recursos naturais, e levantamento da infraestrutura física e humana para o desenvolvimento do assentamento, todo o processo desenvolvido em plenária. A 4ª etapa: sintetização do diagnóstico que originou a elaboração do PDA a partir de expectativas de grupos distintos: homens, mulheres, jovens e crianças. A 5ª etapa: devolução do PDA em um encontro que reuniu assentados, organizações parceiras, poder público pactuando compromissos institucionais.

Resultado Alcançado

A experiência vem reforçando a proposição em construção de Assentamento Agroextrativista em áreas de Cerrados como tecnologia social replicável na busca da preservação do bioma e das comunidades tradicionais que dele vivem. O aproveitamento sustentável da agrobiodiversidade do Assentamento por meio do beneficiamento de produtos possibilitou a comercialização dos mesmos em escala local e regional e a geração de renda para os agricultores; a capacidade de beneficiamento de produtos tornou-se um atrativo regional na produção de doces, geleias, remédios naturais de matéria-prima da própria agrobiodiversidade do Assentamento, destinando estes produtos ao autoconsumo e comercialização. Desenvolveu-se um trabalho de resgate da cultura, valorização do trabalho em conjunto, relação de gênero. Com apoio do CAA, diversos eventos de capacitação ocorreram neste período. Cursos de: Manejo do Solo; Apicultura; Gestão de Associação; Construção de Cisternas de Placas; Encontro sobre Relação de Gênero e Geração de Renda. Nas partes práticas, o trabalho de coleta de frutos envolvia principalmente as mulheres e, desta forma, elas foram refletindo o papel de cada uma no contexto geral. Este processo resultou na constituição de um grupo de mulheres responsáveis pelo trabalho de animação pastoral, celebrações e principalmente produção de doces, remédios e outros. Parte dos assentados da Americana já faziam parte do processo de construção da CGS - Cooperativa Grande Sertão, e fez-se então um planejamento para viabilizar o aproveitamento extrativista da área do Assentamento. As famílias envolvidas na experiência iniciaram a produção agrícola em pequenas roças, cultivando diversas culturas e a criação de pequenos animais. Paralelamente, através de uma articulação com a CGS, implantou-se uma unidade comunitária de beneficiamento do pequi e coleta de frutas nativas para serem beneficiadas na unidade central de beneficiamento da CGS. Estes produtos vêm sendo comercializados pela Cooperativa e vêm se tornando uma fonte de renda para este grupo. Observemos alguns dos resultados quantitativos: dezesseis famílias do assentamento já se envolveram na coleta e entrega desses frutos, tendo recebido da Grande Sertão um valor total de R$ 3.300,00 desde 2002. Outro produto abundante no local é o Rufão, de cujo fruto se extrai um óleo medicinal de grande valor nos mercados locais (é vendido a cerca de R$ 100/litro).

Locais onde a Tecnologia Social já foi implementada
Cidade/UFBairroData da implementação
Grão Mogol / Minas GeraisAssentamento Americana03/2002
Público-alvo da tecnologia
Público alvo
Assentados rurais
Lideranças Comunitárias
Agricultores
Agricultores Familiares
Quantidade: 0
Profissionais necessários para implementação da tecnologia
ProfissionalQuantidade
Técnico Agrícola3
Engenheiro Florestal2
Administrador1
Assentados e agricultores5
Recursos materiais necessários para implementação da tecnologia

GPS - R$ 700,00 Maquina fotográfica - R$ 800,00

Valor estimado para a implementação da tecnologia

Profissional Técnico - R$ 5.880,00 Materiais (Outros) - R$ 5.100,00 Total - R$ 10.980,00

Instituições parceiras na tecnologia
Instituição parceiraAtuação na tecnologia social
INCRA MG -
UNIMONTES -
NCA-UFMG -
Polícia Florestal -
Prefeitura Municipal de Grão Mogol -
CPT -
CAA/NM -
FETAEMG -
Cooperativa Grande Sertão -
Associação PA Tapera -
Impacto Ambiental

Preservação e recuperação de várias espécies nativas da fauna e flora, aumento significativo do volume de água nas nascentes, lagos e brejos. Reconversão de áreas de monocultivo.

Forma de Acompanhamento

Assessoria aos grupos formais e informais do assentamento em atividades de planejamento, monitoramento e avaliação. Um dos mecanismos de acompanhamento ocorre na gestão da Associação. O plano de monitoramento discutido com as famílias ocorre também através das visitas técnicas e planilhas de produção e/ou coleta de frutos que cada família possui. Relatórios quantitativos e qualitativos gerados pela equipe CAA e a ampliação da rede sócio/ técnica.

Forma de Transferência

A tecnologia de uso, ocupação e manejo desta área poderá ser transferida com algumas condições: leitura e análise da paisagem; estratégia de construção conjunta e simultânea dos processos de produção agroecológica; geração de renda com a comercialização. Para a autonomia dos agricultores é fundamental que eles tenham conhecimentos no âmbito do manejo;o seu olhar sobre o conjunto dos fatores e sua participação e seu poder nos espaços de gestão é que vai garantir um crescimento nivelado dos processos de produção e comercialização, bem como sua sustentabilidade. O mais importante neste processo é a participação qualitativa das famílias envolvidas e a sensibilidade técnica para observar, dialogar e propor tecnologias de manejo para produção a partir do relato dos que vivem no lugar.

Depoimento Livre

Nos modelos do INCRA, aqui não servia para ser assentamento, diziam ser terras fracas; eles vêm, fazem análise do solo lá no meio da Chapada, na terra mais ruim, levam para lá, e dão um parecer contra, falando que as terras não eram férteis e que não havia aqui sem-terra. Muitas vezes o INCRA não leva em conta a cultura do povo, os recursos naturais que tem na região; eles consideram o cultivo, limitar uma área pequena para cada assentado, tirar 26% pra Reserva e no outro tem que ser cultivado tudo. (João Altino, Assentado do PA Americana 2008)