CATA LETRAS: alfabetização e letramento com catadoras de materiais recicláveis

certificada 2017

Instituição
Associação Cooper 3Rs
Endereço
Rua Nagib Matte Merhej, 17437.21 - Jardim Suécia - Mogi Guaçu/SP
E-mail
cooper3rs@gmail.com
Telefone
(19) 3831-6431
Responsáveis pela tecnologia
NomeTelefoneE-mailRedes Sociais
Maria Beatriz Vedovello Bimbati(19) 98281-8610rasfonoaudiologia@gmail.com
Resumo da Tecnologia

O CATA- LETRAS, a ser reconhecido como uma “ tecnologia social sócio educativa”, é um Programa de Alfabetização e Letramento diferenciado e que vem sendo elaborado na Associação Cooper 3Rs, em Mogi Guaçu, desde janeiro de 2015, para garantir a participação efetiva, autonomia e poder de decisão de um grupo de catadoras de materiais recicláveis nos destinos e nos contextos de leitura e escrita desta organização social. Vem de encontro aos princípios e valores de acesso, emancipação e empoderamento feminino na autogestão da associação. Hoje participamos em 6 catadoras, uma fonoaudióloga educadora ambiental especializada em psicopedagogia e uma catadora formada em Pedagogia.*{ods4},{ods8},{ods12}*

Tema Principal

Educação

Tema Secundário

Renda

Problema Solucionado

A exclusão social e econômica dos catadores de materiais recicláveis tem relações diretas com o analfabetismo. Catadores e catadoras são trabalhadores que tentam enfrentar a pobreza com a catação de materiais recicláveis. Exclusão da escola leva à exclusão do sistema de produção e consequentemente à exclusão econômica e social. Nas rodas de conversas, nas reuniões e nos primeiros encontros do CATA LETRAS, as catadoras da Cooper 3Rs participantes mencionaram vários fatores que dificultaram e impediram-nas de “ entrarem” na escola ou de permanecerem estudando. O fato de serem “mulheres”, na maioria negras; trabalho infantil, trabalho na roça; êxodo rural; exclusão por evasão escolar; “inquietudes” ou “ doenças infantis”. Pobreza! Cultura diferente da cultura dominante! Como descrevem Hasenbalg e Silva (1999, p. 31), “existe uma alocação diferencial histórica entre grupos de homens e mulheres brancos e negros”. Nesta alocação, os negros foram ocupando a base da hierarquia social, em áreas com maiores índices de analfabetismo. Este grupo ingressa tardiamente na escola, e apresenta altos índices de evasão e repetição escolar. "

Objetivo Geral

Contribuir com as catadoras de materiais recicláveis para que tenham acesso à cultura da sociedade letrada por meio da apropriação do sistema alfabético da escrita, alfabetizando letrando nos diversos contextos discursivos de uma Central de Triagem de Resíduos Sólidos.

Objetivo Específico

1. Construir um espaço de diálogo e reflexão coletiva acerca dos impactos, das limitações e das causas prováveis do analfabetismo para cada um dos participantes do grupo, identificando pontos em aspectos comuns a todos ( função, trabalho, renda, gênero, idade, etnia, cor da pele, incentivando as participantes a identificarem situações em que se justifica a importância da apropriação da cultura da sociedade letrada, explicitando as finalidades e as funções sociais de ler e escrever 2. Oportunizar às participantes a leitura e a escrita de textos de diferentes tipos e gêneros, incentivando o uso da leitura e da escrita como instrumentos e ações de apropriação de informações, organização e controle, disseminação e publicidade do trabalho de coleta seletiva, argumentação 3. Construir uma metodologia para contribuir com programas de alfabetização e letramento de jovens e adultos catadores de materiais recicláveis

Descrição

O CATA LETRAS não se constitui de “ aulas” por uma “professora e alunas”. É momento da troca e aprofundamento de conhecimentos entre fonoaudióloga, uma catadora formada em Pedagogia e catadoras que se apropriam da linguagem escrita ao se reunirem em Círculo de Cultura (Paulo Freire). Tem sido construído a partir de uma concepção sócio-histórica e dialógica ( BAKHTIN, 1982{1029}; FRANCHI,1987), em que a linguagem é abordada na sua função social e compreendida como constituinte da subjetividade e da alteridade. Sujeitos atuantes no processo, todas somos pesquisadoras e protagonistas de um modo singular de alfabetização com catadoras enquanto “tecnologia social” transformadora porque é emancipadora e empoderadora. Trata-se de ensinar e aprender “linguagem” escrita e não simplesmente ensinar e aprender “escrita”. Temos utilizado a abordagem dos Gêneros Textuais (BAKHTIN, 1982{1029}) , considerando a realidade psicológica, social, econômica e linguística das catadoras, gênero feminino. Esta perspectiva contempla o sistema alfabético para além de consoantes e vogais, valorizando os caracteres e convenções gráficas não – alfabéticas: sinais de pontuação, sublinhado, itálico, maiúsculas e minúsculas etc. Como em todos os espaços e em todas as organizações de catadores/as, há uma variedade de linguagens escritas no contexto e no cotidiano da Associação Cooper 3Rs e que servem a diversas finalidades. Os gêneros textuais são determinados pelas intenções e propósitos comunicativos. “Para além da alfabetização” o CATA LETRAS, alfabetização e letramento com catadores/as, pauta-se no material curricular que foi proposto por um grupo de educadores/as coordenados por Ana Teberosky para dar conta de acompanhar mudanças na perspectivas teóricas acompanhadas de alterações nas práticas educativas com crianças. O CATA LETRAS, embora possa ser replicado em coletivos e organizações de catadores e em especial mulheres catadoras, é uma metodologia que precisa ser recriada pelos sujeitos e por cada grupo, nas suas singularidades e de acordo com suas culturas. O primeiro encontro já deve ser entendido como um “Círculo de Cultura”, semelhante aos de Paulo Freire. Os/as participantes devem ser valorizados como “pessoas que aprendem participando ( PAPs)” de uma “pesquisa – ação- participativa ( PAP)“ “ _ Por que ainda não sabemos ler e escrever?” As conversas e discussões, certamente, transitarão pelo fenômeno da evasão escolar ou pela falta de acesso à escola. acesso à cultura da sociedade letrada, preconceito de pele, culturas diferentes da escola excludente, trabalho infantil, êxodo rural e experiências ineficazes na EJA, etc. Surpreendentes histórias denunciaram a exclusão escolar como causa da exclusão do sistema de produção e do mercado de trabalho. Relacionaram injustiça social e trabalho dos catadores, em especial da catadora mulher: "conflitos de gênero na sociedade e na associação; relacionaram linguagem escrita e poder de decisão: disseram da necessidade da mulher catadora integrar os conselhos administrativo e fiscal na Cooper; observaram que no grupo a maioria é mulher negra. Sobre “ _ o que é escrita e para que ler e escrever” questionamos as funções sociais da escrita: 1. lembrar; localizar; registrar; organizar; colocar em ordem ( tipos de texto enumerativos de diversos gêneros: listas de associados horas trabalhadas e rendas mensais; listas e agendas de telefones; lista de compradores; relatório mensal de vendas; nomes dos ônibus; etiquetas; rotulagem de produtos, de materiais, de nomes nos armários; nomes dos associados nos armários e pertences; nome dos materiais recicláveis) 2. Informar e nos informar sobre acontecimentos ( avisos de reuniões; horários de trabalho; notícias; convocação de reuniões; notícias de jornal da Cooper). Ofícios da prefeitura e SAAMA, folderes do MNCR, matérias de revistas ) 3. Aprender a fazer as coisas: (Ler manuais de equipamentos, instruções de tarefas diárias; atas e acordos em assembleias; pautas de reunião; receitas de culinária, receitas de remédio, cartilhas de formas de separar os materiais recicláveis; regras e regimento interno; estatuto caixa de sugestões e pautas) 4. Ler e expor resultados ( ler relatórios mensais), fotografias de eventos da Cooper com legenda; atas de reuniões; 5. ler para distrair e por prazer : textos do tipo literários: poesias; textos da Bíblia; novelas e histórias; letras de músicas). A gramática foi abordada como atividade metalinguística. No enunciado SOU CATADORA ! Analisamos e definimos “frase”, “ palavras”, “sílabas”, “fonemas” e “grafemas”. As relações entre fonemas e grafemas ( duas letras representando um fonema – LH, NH, RR,SS; CH); uma letra representando fonemas diferentes ( X - S - G). Textos enumerativos são comumente utilizados na Associação. Preencher FICHA desencadeou: “ Em que situações preenchemos fichas? Onde?” letras de forma, cursiva e letras de imprensa; sublinhados são abordados

Resultado Alcançado

Justamente pela dificuldade em encontrar horários disponíveis para a atividade de alfabetização já que há outras tantas demandas (trabalho e produção para a geração de renda ), o CATA LETRAS, na forma em que foi concebido, como uso e necessidade de ler e escrever, e com as caraterísticas do grupo, fomentou autonomia, desejo e luta por uma gestão feminina. Do início das atividades e, de lá para cá, as reflexões do grupo de mulheres sobre as relações entre “poder” e linguagem escrita levaram o grupo de mulheres a exercer maior “controle“ sobre as prestações de contas, ao terem acesso a planilhas e movimento de caixa de rendas, receitas e despesas, tabelas de preços de materiais, e identificar as condutas autoritárias e individuais dos gestores na época, o que desencadeou um novo processo de escolha por novo Conselho Administrativo, hoje com a liderança de uma jovem mulher que busca desenvolver a auto gestão e a responsabilidade compartilhada entre todos/as associados/as e a garantia do exercício da ética e do respeito e valor das diferenças de cultura, gênero, opções sexuais, etnias, competências e habilidades. O grupo retoma as atividades do CATA LETRAS com 5 catadoras associadas, pois duas delas deixaram a organização por motivos de mudança de cidade e emprego. De grande importância ao grupo tem sido a inserção de uma catadora formada em Pedagogia ( associada fundadora ), que volta à Associação na função de triadora após formada, pois não encontrou No CATA LETRAS, a catadora pedagoga apoia diariamente as catadoras em fase de apropriação do código gráfico, dando efetividade ao CATA LETRAS nas horas de descanso (café e almoço) e no contexto do “uso” dos variados gêneros de discurso. Todas as 5 catadoras avançaram em nível de alfabetização e de letramento. Participa de Conferências de Assistência Social, Meio Ambiente e Saúde e como educadoras ambientais nas escolas. Duas das associadas catadoras do CATA LETRAS já participavam do Conselho Fiscal da Associação, já “sabiam” decodificar letras mas sem lhes dar “sentido”. A partir do momento em dominavam a análise e interpretação dos dados e dos gêneros. foram adquirido o código gráfico. A atual gestão feminina na Associação se deve, em grande parte, aos encontros realizados, entendidos como Círculos de Cultura, espaços dialógicos e de apropriação de informações fundamentais para o controle e fiscalização, para a auto-gestão e emancipação destas mulheres catadoras. Todas avançaram.

Locais onde a Tecnologia Social já foi implementada
Cidade/UFBairroData da implementação
Mogi Guaçu / São PauloJd Suécia01/2015
Público-alvo da tecnologia
Público alvo
Adulto
Catadores de material reciclável
Mulheres
Recursos materiais necessários para implementação da tecnologia

Para implementar o CATA LETRAS são necessários poucos materiais e recursos, comumente encontrados nas cooperativas e associações de catadores, como: mesa, cadeiras, quadro de giz, apagador, pastas com plásticos, canetas, lápis, borracha, cadernos, folhas, livros diversos encontrados na coleta seletiva, e os portadores de textos utilizados no cotidiano, geralmente afixados nos quadros ou paredes. Há uma série de sugestões práticas para o trabalho com a alfabetização de catadores que podem servir de modelo para intervenções psicopedagógicas dialógicas. Os recursos são encontrados na atividade cotidiana do trabalho colaborativo/ cooperativo de coletar, triar, enfardar e comercializar materiais recicláveis com protagonismo de catadores e catadoras.Ou seja, os recursos materiais imprescindíveis são justamente os "gêneros textuais" que são tão diversos neste espaço de trabalho. Inspirada nos modelos da educação popular de Paulo Freire e Carlos Rodrigues Brandão, mas também utilizando estratégias, recursos e materiais Não se tratam de instruções prescritivas, mas de um trabalho adaptado às demandas dos caadores e catadoras, pautado nas experiências de autores assessorados e formados por Ana Teberosky na Catalunha. Cada cooperativa ou associação de catadores pode ser uma UNIDADE DO CATA LETRAS desde que alfabetização se faça concomitante ao letramento. Disponibilizamos como ideia, "pranchas" resultantes de uma sistematização da nossa experiência com catadores.

Valor estimado para a implementação da tecnologia

5 mil reais, no caso de aquisição de novos recursos ( mesas, cadeiras, quadros), R$ 24.000,00 anuais para recursos humanos, totalizando por volta de R$ 29.000 Entretanto, na Cooper não houve este custo. Materiais reutilizados da coleta e recursos humanos ( fonoaudióloga) é serviço voluntário e gratuito. Pedagoga é catadora que trabalha diariamente na triagem de materiais recicláveis.

Anexos da tecnologia
LegendaArquivo/Download
Modelos de Plano de Trabalho do CATA LETRAS, materiais e recursosdownload
Endereços eletrônicos associados à tecnologiaDepoimento Livre

Atuamos como pesquisadoras de um modo /metodologia/ tecnologia singular às características do grupo de catadoras para a apropriação da cultura da sociedade letrada. Todas as alfabetizandas catadoras tem em comum, além do gênero feminino, a falta de acesso e a evasão escolar, o trabalho na catação e na triagem de materiais recicláveis, a exclusão social e econômica, uma história de “infância na roça”, trabalho infantil e pais que consideravam desnecessário ou inaceitável mulheres frequentarem a escola. Contudo, enfrentar a pobreza e sustentar a família com o “dinheiro da sucata” é o que as une. Buscamos mais que alfabetização (codificação e decodificação): dominar e manipular textos para atuar no coletivo com controle social e poder de decisão.